sexta-feira, 18 de abril de 2014

PROVE!




                Vou direto ao ponto. Não é preciso dizer a ninguém – direitista, esquerdista, centrista – o que a Senhora Marilena Chauí disse por ocasião do evento em comemoração aos supostos dez anos de governos neoliberais no país.
                Ela simplesmente se utilizou de uma abundância retórica – sim, grandes filósofos também cometem o pecado da retórica pura – para desferir impropérios sobre o que chama de classe média, como se o fato de alguém pertencer a uma determinada faixa de rendimentos mensais fosse suficiente para ser taxado de tantos adjetivos desairosos.
                Primeiro, é necessário esclarecer à ilustre professora que nunca houve, após a reabertura democrática, um governo brasileiro que não fosse neoliberal. Sim, existem algumas verdades que os petistas não querem ouvir, porque são justamente aquelas que os transformam na mesma matéria sórdida e infeliz que moldou os tucanos.
                Relembremos que várias das instituições da social-democracia que foram inseridas na Constituição Federal de 1988 começaram a ruir justamente porque o Partido dos Trabalhadores, que as defendiam com unhas e dentes até 2002, as derruíram quando entrou no poder.
                Não é preciso citar muitas: - A Emenda 40, uma proposta tucana que vegetou vários anos no Congresso, com severa oposição do PT, foi solenemente aprovada com o aval do senhor Luiz Inácio, solapando de vez qualquer esperança de controle sobre os juros bancários no país. Entregaram de vez a economia para as instituições financeiras. Tá explicado! A classe média é abominável, é uma excrescência, portanto, que história é essa de que a economia seja manipulada pela classe produtiva, composta de pequenos empresários, produtores rurais e comerciantes. Essa gente é fascista! Entreguemos o país para os bancos, ora! Eles não são classe média, são milionários, aí sim!
                Entendi.
                Não precisamos ir muito longe: - A Emenda 41 (que coincidência de números, não? Logo após a 40!), que relegou aos inativos índices de recomposição miseráveis e taxou seus rendimentos com a contribuição previdenciária foi obra de quem? Ah, sim, foi dos neoliberais, que não respeitam os direitos sociais conquistados durante anos (foram vinte anos, segundo o discurso de Marilena?). Claro, o PSDB tentou durante muito tempo solapar a previdência, e conseguiu, em parte, com a Emenda 20. Mas o golpe final, com requintes de crueldade, veio na 41, por um governo que se diz pós-neoliberal.
                Francamente.
                Também não precisamos comentar que esse mesmo partido, ensandecido contra a sanha financista dos governos anteriores, que mantinham um pseudo-imposto chamado CPMF, não titubeou nenhum momento em conservá-lo, e bradou fogos aos quatro ventos quando a oposição (neoliberal, que fique bem explicado) o sepultou. Vale dizer: fora do governo, somos contra a bitributação, a instituição de tributos inexplicáveis etc. Uma vez no governo: oba!
                Sem comentários.
                Ainda é necessário relembrar que, no primeiro minuto de governo, a nomeação de um tucano para a presidência do Banco Central, com adoção de política de manutenção de juros altos, massacrando a maldita classe média, parece não ser uma política lá muito social-democrata, tampouco socialista. Será que foi um gesto neo-liberal?
                Respondam-me.
                Outros fatos interessantes me vêm à mente, como a edição de um decreto que expulsava um certo jornalista norte-americano que ousou taxar o herói do povo de beberrão. Que democrático, não? Que sapiência jurídica!
                Diga, senhora Marilena, isso foi suficientemente estúpido, ignorante, petulante, arrogante e reacionário quanto é a classe média brasileira?
                Ah, mas o PT não meteu a mão no patrimônio brasileiro, como foram as criminosas privatizações do governo tucano. Certo, a forma das privatizações tucanas, com venda de patrimônio público a preço de banana e em troca de moeda podre talvez tenha sido um dos maiores crimes de lesa-pátria já cometidos neste país. Mas a forma petista de privatizar é diferente: a distribuição de cargos públicos aos companheiros e apaniguados, embora não tenha sido uma invenção dos trabalhistas, ganhou ares de profissionalismo e sistematização neste governo. Não bastassem as cifras divulgadas – de que só nos três primeiros anos de lulismo, eram mais de quarenta mil cargos públicos federais de natureza técnica ocupados pelos petistas – é necessário lembrar o loteamento dos Correios e da Petrobrás, para ficar apenas em alguns exemplos.
                E nem me falem do PAC e da Delta.
                Pois bem. Essa história de pós-neoliberalismo é uma balela. Portanto, o discurso da ilustre professora já se inicia com base em uma falácia.
                E o que começa mal, termina mal.
                Não é à toa que, para impressionar, a culta senhora teve que apelar para uma eloquência barata, taxando a classe média de:
- Atrasada
- Estúpida
- Ignorante
- Petulante
- Arrogante
- Reacionária
- Conservadora
- Terrorista
- Abominável
- Fascista
- Violenta
                Pois bem, Senhora Marilena, eu pertenço à classe média brasileira. Eu e mais cem milhões. A senhora acusou cem milhões de pessoas de fascistas, violentas e terroristas, só para ficar nos adjetivos mais pesados.
                Então, prove, minha cara. Você e qualquer petista, socialista, comunista, social-democrata, neo-liberal, centrista, apartidário, anarquista, ou qualquer outra pessoa que leia esse texto.
                Quero dizer a todos que sou da classe média, mas não sou atrasado. Talvez os títulos de doutora e livre-docente façam com que a professora se sinta melhor que os demais. Saiba, no entanto, que muitos doutores e livres-docentes pelo país são da classe média. São estúpidos? São ignorantes? De quem é a arrogância, afinal?
                Não sou estúpido, embora pertença à abominável classe média. Não devo ter lido tantos livros quanto a ilustre PhD, mas tenho senso de cultura suficiente para saber que as pessoas não se medem pelo conhecimento. Procure ter um pouco mais de humanidade, professora.
                Não sou ignorante. Sou da classe média, mas também tenho vontade e dedicação para procurar saber das coisas. Tem algumas ditas ali em cima. Procure analisa-las.
                Petulante e arrogante são conceitos subjetivos. Não vou comentá-los. Deixo para quem assistir ao discurso da ilustre professora uma bela oportunidade para o estudo pormenorizado desses predicados.
                Sou reacionário e conservador? Eu e mais cem milhões de pessoas neste país somos reaças de merda, dona Marilena? Somos reaças porque, depois de depositarmos mais de cinquenta milhões de votos no herói do povo em 2002 (sim, eu também caí nessa esparrela naquela oportunidade), nos sentimos traídos porque o governo “pós-neoliberal” não trouxe nem um décimo da tal emancipação política e econômica que queríamos? Pela promessa quebrada de ética na prática política e do fim do fisiologismo partidário? Pela continuação dos esquemas de promiscuidade política que livraram gente da cassação no congresso, provocando dancinhas indecentes? Porque não concordamos com a política de sufoco tributário à classe empresarial? Porque nunca houve nenhum esforço para que se fizessem reformas política, tributária e trabalhista? Porque, apesar de todos os esforços em contrário, ainda não foram bem explicados episódios como o mensalão, o enriquecimento da família Lula, a compra de Pasadena etc etc etc? Porque a inflação está voltando? Porque não concordamos com a simpatia com regimes totalitários como o de Cuba? Ou com a falsa democracia venezuelana?
                Se isso é ser reacionário, pode dizer à vontade. Nisso podemos concordar.
                Agora, quanto a ser terrorista, fascista e violento, dona Marilena, prove!
                Prove, minha senhora, que cem milhões de brasileiros são fascistas, o que pressupõe xenofobia, etnicismo, totalitarismo, moralismo, imperialismo e algumas coisas mais. Ora, vamos! É preciso pensar um pouco melhor antes de dizer as coisas. Retórica pura faz mal, professora!
                Prove que sou terrorista, minha cara. Que ato de terrorismo é esse que a classe média brasileira pratica? É terrorismo moral? Agora é proibido discordar dos desvelos dos agentes políticos? Se for isso, madame, estamos em desacordo sobre quem é fascista por aqui.
                A classe média é violenta? Certamente. Somos culpados de ter ideias próprias. E muitas dessas ideias violentam o pensamento que prima pela manutenção do status quo. Grandes regimes totalitários começaram por aí, acusando uma suposta, pressuposta ou real elite (acusação agora dirigida à classe média) de pessoas violentas, reacionárias, estúpidas e por aí vai.
                Abominável, minha senhora, foi o seu discurso. A senhora deve ao país – e não só à classe média – um pedido de desculpas. Mas, se não tiver humildade suficiente para isso, fique com a sua petulância e arrogância.
                Eu fico por aqui, reduzido à minha insignificância, insistindo em ter ideias próprias, algo que grandes regimes antidemocráticos (de direita ou de esquerda) sempre querem subtrair à nação, e começam justamente através do ataque aos que, supostamente, podem ser a maior ameaça ao regime, o que, no caso, pela estridência, parece ser a classe média.
                Fim.
               
PS: Para quem, por acaso, ainda não tenha visto, aí está o link: http://www.youtube.com/watch?v=lbzu9yvC4sw

terça-feira, 11 de março de 2014

PRECISAMOS DE OXIGÊNIO

  Tenho usado muito pouco esse espaço para comentar livros ou recomendar leituras. Vou fazê-lo agora para me referir a uma obra genial sobre gestões empresariais.
   E por que logo eu fui ler um livro sobre gestão empresarial? O que tenho a ver com isso?
  Pois recomendo não só a leitura, mas também aprofundadas reflexões sobre “O2 – Organizações Orgânicas”, de Renan Carvalho.
  Confesso que existe uma antiga e leal amizade entre mim e o autor, mas não foi o único motivo pelo qual lhe encomendei o envio do livro e o quis ler: é que o título e os comentários acerca da obra realmente me instigaram a curiosidade, sobretudo porque trata de um tema profundamente ligado à minha área, que é a da solução dos conflitos humanos.
  E é nas empresas que o autor concentra seus esforços. A partir de um emocionante e confidente relato de suas experiências pessoais e profissionais (que vão desde uma micro agroindústria de produção leiteira em sociedade com seu pai até o comando gerencial de conteúdo de internet de uma importante empresa norte-americana, passando por pós-graduação em terras ianques), Renan lembra que passou a se perguntar, a partir de determinado momento de sua vida: Por que, afinal de contas, não alcanço a felicidade em nenhuma das atividades que desenvolvi até hoje?
  E é aí que surge a grande sacada da sua obra: combinar a ideia do sistema orgânico de administração de empresas com o trocadilho em torno da sigla OO, de Organizações Orgânicas, fazendo surgir o símbolo da fórmula química do ar que respiramos – O2.
 Com linguagem extremamente fluida, agradável, dinâmica e objetiva, o autor traça todas as premissas de um modelo ultrapassado de administração, denominado de Comando e Controle, para subvertê-las (no bom sentido, é claro) em premissas orgânicas, ou seja, de organização do mundo empresarial tendo como premissa maior a de que a existência da atividade empresarial serve para gerar felicidade e contentamento não só aos seus sócios, mas também aos clientes e, principalmente, aos seus funcionários e colaboradores.
 O autor nos mostra um sistema que ele mesmo confessa não ter sido fruto de sua solitária imaginação, pois relata, por exemplo, os modelos de gestão da Toyota e do Google, voltados para a satisfação do usuário e dos colaboradores, e não só dos sócios proprietários.
 Mas conseguiu a façanha de destruir, um a um, os preceitos seculares dos modelos tradicionais de gestão, que são voltados para o único propósito de enriquecer os donos e administradores de empresas e, para isso, não se preocupa em, no meio desse processo, transformar pessoas (os empregados) em meras peças de uma engrenagem que deve sempre funcionar em seu favor.
 Aqui no campo do Direito somos acostumados a dizer que as empresas individuais ou as sociedades empresárias são apenas espécies das chamadas pessoas jurídicas, que se diferenciam das demais (fundações, associações etc) pelo propósito lucrativo.
 O modelo orgânico de gestão não afasta o propósito lucrativo como consequência da atividade empresarial. Mas propugna pela adoção de métodos que visem, antes do lucro, a geração de encantamento nos clientes e a satisfação pessoal dos empregados ou colaboradores da empresa. Renan cita, como um dos fundamentos da necessidade de adoção desse modelo, estatísticas alarmantes que demonstram altíssima rotatividade das pessoas nos variados empregos, constatando uma constante busca por um ambiente mais satisfatório e que, ao cabo, traga mais felicidade.
 Enfim, na minha forma canhestra e parcial (própria de todo ser humano) de ver as coisas, seu maior mérito foi o de esclarecer que é possível que as empresas – ambiente de geração de capital – possam, ironicamente, ser o local mais propício para nos livrarmos do irritante materialismo que tem tomado conta das últimas gerações, fenômeno que, embora não recente, tem se avultado de forma assustadora a cada dia. E isso não só pelo evidente consumismo desenfreado das pessoas – das mais variadas idades – mas também por fatos, que se toma conhecimento pela imprensa, de total desprezo a qualquer valor moral e ético ou de prestígio à existência humana (lembro-me agora, para ficar em um só exemplo, de uma garota, em uma rede social, rindo-se do fato de que algumas jovens foram assassinadas supostamente por envolvimento com uso e tráfico de entorpecentes, como forma de forra pessoal porque sua casa teria sido “invadida” por traficantes no passado).
 Esses desvirtuamentos do comportamento humano na modernidade já haviam sido vaticinados por gente do calibre, por exemplo, de Aldous Huxley, em seu “Admirável Mundo Novo”, ou mesmo por Stanley Kubrick e sua “Laranja Mecânica”. Mas talvez quem tenha dado as melhores lições sobre o assunto fora já Heráclito de Éfeso, quando dizia, num passado muito remoto, algo como: “tudo flui, não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao cabo, na segunda oportunidade não teremos mais a mesma matéria, a água em que penetramos será outra”.
 E isso nos traz de novo ao tema da notável obra de Renan Carvalho, que nos ensina que o mais importante é a inspiração e transpiração da felicidade, e não a obcecada busca pela simples realização de desejos pessoais (sejam eles amparados em lucro, aquisição de bens de valor ou mesmo de mero capricho), afinal, como dizia Heráclito, tudo passa, e, no final, seremos sempre os mesmos corpos compostos de carne, osso e, quem sabe, uma alma que não levará para outra existência nada da matéria com a qual teve contato.
 Essas questões tocam profundamente na área da resolução dos conflitos humanos, pois é necessário se ter noção de que, em qualquer relação, conflituosa ou não, deve-se ter pensamento proativo, ou seja, em favor do que está por vir, porque o pretérito fica no passado e de lá não sairá jamais.
 Se, ao lado disso, conseguirmos ser também menos materialistas, já é um grande passo no caminho do auto-conhecimento e da felicidade.

sexta-feira, 7 de março de 2014

LABOR TARDIO

Sabor das horas
Despertar da forma e dos sentidos
Enclausurado dos meus versos estroinas
Tonitruo no vagar laborioso do meu ser

É tarde, eu sei
Mas na cefaleia das virtudes
Ainda cirandeiam pela mente
Vagas mentiras de inverno seminal

E em vicissitude se torna
Em torno da alma
O torno da forma
Que torna a nascer

Inauguro uma vez mais
Imago de mim, à sombra de faias
A fala amoral
Que insiste em sair

Que seja anormal
Que seja informal
Que seja distal
Desleal

Das liras de Apolo
Da força dionisíaca
Assim invertido
Esvazio essa pena

No claustro das formas
Desfaço o alicerce
Disfarço os sentidos
Sabor das horas

Goiânia, 7 de março de 2014

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

ECO

Agradeço a parafina
fina
Incremento as caravelas
velas

Amplifico o catavento
vento
E dispenso o terno esporte
porte

Perco-me em divagações
ações
Que borbulham em toda parte
arte

Perco tudo num naufrágio
ágio
E aproveito o que deságua
água

Inda que encontre um abraço
braço
Não descarto o paraquedas
quedas

Descortino meu cansaço
aço
E resolvo meu contrato
trato
Esvazio todo o prato
rato
Mas oculto todo o fato
ato

Prevenindo a bancarrota
rota
Finalizo esta cantiga
antiga
De sentido desconexo
nexo
Sem nenhum falso pudor
dor

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

NERVOS DE AÇO

Lupicínio Rodrigues talvez dissesse hoje: esse rapaz, Celso de Mello, cabe bem na minha canção. Tem nervos de aço e não tem sangue nas veias.

Se Sua Excelência realmente já tinha posição formada ao final da sessão suspensa pelo presidente Joaquim Barbosa, pela admissão dos embargos infringentes, poderia ter exposto seu voto, pelo sim ou pelo não, a contragosto do presidente.

Se não o fez, é porque preferiu esperar seis dias - com o peso de anos - para poder dar as razões da sua convicção. É que no STF, a comunidade jurídica inteira sabe, é quase impossível simplesmente julgar "com o relator" ou "com o revisor".

Mas é difícil de assimilar essa pressão toda que se vem fazendo no Supremo para que o julgamento penda para um lado ou para outro.

Acabei de ver uma enquete em que somente 5% dos que responderam se disseram favoráveis ao acolhimento dos infringentes. Então a conta não bate: se as opiniões a respeito do tema fossem realmente pautadas apenas pelo jogo político, os simpatizantes dos infringentes deveriam ser mais numerosos, pois, certamente, há mais de 5% de fãs do PT pelo país afora.

Então, vale dizer: a turma do governismo tem que parar com essa teima de que o Supremo está de marcação com o PT. Deixa o Judiciário julgar a parada da melhor forma que entender para a questão, pois até mesmo petistas de carteirinha devem estar convictos da existência do mensalão.

Mas é bom fazer uma reflexão pelo lado contrário também. E uma reflexão crítica.

Essa de ficar jogando pedras em todos os ministros que estão reconhecendo o cabimento dos embargos, acusando-os de vendilhões do templo, não pode partir de um entendimento apressado sem tomar conhecimento das diferentes formas de interpretar os termos legais e jurídicos.

Não vou me alongar a respeito de qual é a melhor interpretação para o caso, mas o fato é que ambas são razoáveis. Mas, de repente, muitos se cegam e simplesmente passam a dizer que qualquer posição contrária à opinião pública é estapafúrdia e significa a prodridão dos poderes - ou de partes deles.

É difícil mesmo achar o equilíbrio ideal entre a melhor interpretação num caso tão rumoroso e a manutenção da dignidade no exercício de um cargo tão nobre e relevante como o de juiz de uma Suprema Corte, mas não podemos deixar de acreditar que a justiça se faz com a aplicação da melhor solução para o caso posto, e não através da imposição, ainda que popular, de uma decisão baseada apenas na opinião pública.

Por isso, deixem o Ministro em paz. Ele pode ter nervos de aço, mas, afinal, aço também verga, e isso pode não ser tão bom quanto se imagina que será.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Crônicas goianienses - I

   Naquela época, um fim de semana depois de cinco dias de aula no Colégio Pré-Médico era o bilhete de passagem da saída do inferno para dois dias paradisíacos. Do alto dos seus quinze anos, ele achou o máximo a visita do irmão mais velho, com o qual, depois do cinema no domingo à noite, foi até aquele barzinho do qual hoje não se recorda o nome.
   Saíram do Cine Capri por volta das vinte horas e subiram a Goiás até a Praça Cívica. De lá, o irmão mais velho e o do meio o relegaram para o banco de trás do Escort azul, que era o lugar de “menino e cachorro”, como dizia o pai. Da Praça Cívica pegaram a Avenida 85 e seguiram até a Praça do Ratinho, de onde seguiram à direita até a Praça Leo Lynce.
   Um pouco abaixo do 6º Cartório de Notas, eles entraram naquele bar, que tempos depois foi o Gyn Café e que hoje está para alugar.
   Ali se sentaram ele, o irmão mais velho, que havia guiado até ali, e o do meio. Bullying familiar era o que rolava. Caçula sofre.
   Comeram ali um filé a palito. O irmão do meio recusou o chope que o mais velho ofereceu.
   - Qual o problema, Astolfo?
   - Nenhum. Só não gosto.
   - Será que esse bostinha vai querer? - disse o mais velho se referindo ao mais novo.
   - Eu quero, claro.
   Ao final do segundo copo de chope, a bebida já não era mais amarga e ele já não sofria mais o bullying familiar. O alvo mudou. Astolfo agora sofria com os apelidos.
   - Bebe um gole aí Vantolfo.
   - Bebe, Ranolfo.
   No dia seguinte, a segunda-feira prometia grandes emoções no Pré-Médico. Ele se sentia o tal, afinal, havia tomado quatro tulipas de chope. Seu colega Fábio, no intervalo das aulas, não deixou por menos:
   - Que isso, rapaz. Quatro tulipas é fichinha. Tô acostumado com oito pra cima.
   - Bravata.
   Depois do meio dia e cinquenta, já tocada a sirene do final das aulas, ele se despediu da turma e foi pra casa, à pé, subindo a rua 9, na companhia de um amigo gordinho. Aproximaram-se cinco pivetes armados com canivetes.
   O gordinho, já escaldado, desapareceu antes que os pivetes os cercassem. Sem chance, e já quase na esquina com a Avenida D, ele abriu a carteira e deu o que tinha, além do relógio que estava no braço.
   Anos depois ele ainda ria da história com o gordinho. Gente boa aquele gordinho.
   Passou umas duas semanas voltando de táxi pra casa. Sempre tinha que ouvir o coro da turma: “Vou de táxi, cê sabe, tava morrendo de saudade...”

terça-feira, 27 de agosto de 2013

FAZENDO CONTAS



Confesso que tenho algumas dúvidas. Essa história de importação de médicos, de fato, tem várias faces. Algumas são ordinárias, outras são sordidas.

E a sordidez anda dos dois lados.

É verdade que a saúde já está caótica há anos, portanto não há que se falar em solução de urgência para trazer médicos de outros países para cá.

Por outro lado, no entanto, o governo é sempre bombardeado com as imprecações populares acerca desse caos. Lançou mão, portanto, de um programa de interiorização, que não interessou à maioria dos médicos brasileiros e culminou por não preencher as vagas necessárias para corrigir as distorções.

Não vou entrar no mérito sobre os valores oferecidos aos médicos brasileiros. Nem no que se refere aos rincões para onde deveriam ir.

O fato é que a classe médica engole agora boa parte de suas próprias atitudes ao longo de anos a fio. Os conselhos federal e regionais sempre barraram a criação de novos cursos. Nunca foram abertos à ampliação do corpo de profissionais. Cito o caso de Goiás, que até pouco mais de cinco anos atrás recebia apenas 110 novos acadêmicos de medicina por ano. A criação de novos cursos, num passado recente, enfrentou resistências conhecidas de todos.

É claro que o governo tem sua parcela de culpa nisso, já que não peitou o lobby médico quando e como deveria e, agora, usa dessa solução terceirizada, que, convenhamos, não pode ser definitiva, senão transitória até que tenhamos medicos em abundância.

Mas o problema não é aí. Importar médicos, a princípio, pelo que se desenhou acima, não estaria fundamentalmente errado. O problema é o que pode estar por trás do programa Mais Médicos.

As informações podem estar erradas, afinal, a imprensa tem se mostrado terreno fértil de afirmações equivocadas e afobadas. E não falo aqui que há um PIG (Partido da Imprensa Golpista), pois esse trocadilho infame já revela por si só o pouco apreço pela democracia e pela liberdade de expressão de quem o criou e só demonstra a intenção governista de desqualificar o que não vem das fontes oficiais.

O que quero dizer é que, se eu estiver embasado em informações falsas, farei a mea culpa a tempo e a hora, mas o fato é que tem constado que, dos médicos importados, 4.000 serão cubanos, ao preço de R$ 10.000,00 (dez mil reais) ao mês cada um para os cofres públicos nacionais. 

Admitir que esse pessoal ganhe esse valor por mês é normal. R$ 10.000,00 mensais para a atividade médica é até pouco.

Aceitar que eles façam o que bem entenderem com a grana, inclusive sem gastar nada dentro do país, embora seja economicamente desastroso para a República (e com o bolso do contribuinte) ainda vá lá.

Compactuar, no entanto, com o fato de que esses valores serão repassados diretamente ao governo cubano (numa espécie de convênio, não sei, ou numa forma de contratação de trabalho temporário - os advogados trabalhistas me entenderão), sem desconto de nenhum centavo de imposto, já fica difícil de engolir. Isso é renúncia fiscal. E descarada.

Dizer que o governo cubano vai repassar para os profissionais o quanto quiser, taxando-os de escravos, convenhamos, é um argumento fraquinho da oposição. Com certeza a renda mensal dessa turma na ilha caribenha é bem pior, daí o interesse em vir para cá.

O problema é mais embaixo. É admitir que esse "convênio" permita ao governo cubano receber R$ 40.000.000,00 (quarenta milhões de reais) por mês do bolso do contribuinte brasileiro.

Se, considerando por baixo, calcularmos que o governo castrista - conhecido por sua "bondade" - retenha algo como 25% dessa renda (o que se aproxima do nosso leão), estaremos financiando, do nosso bolso, um dos regimes totalitários mais duradouros de todos os tempos, com dez milhões de reais enviados por mês, limpinhos, para serem gastos como Raul Castro quiser.

Em um ano são R$ 120.000.000,00. Se isso durar dez anos, teremos contribuído com mais de um bilhão para um regime ditatorial (isso considerando a retenção de 25%, o que pode ser mais, mas também pode ser menos - segundo Alexandre Padilha, nao temos nada com isso!)

Nada contra Cuba. Nada contra os médicos cubanos. Nada contra o comunismo. Nada contra o PT, a Dilma ou o Padilha. 

Mas, pelas minhas contas, estamos financiando uma ditadura, algo que, por si só, dada a nossa experiência recente, deveria nos fazer corar o rosto de vergonha.

É claro que não concordo com essas manifestações ridículas, promovidas por algumas pessoas, de hostilidade contra os médicos estrangeiros, sejam cubanos ou de qualquer outra nacionalidade. Isso é mesquinho, é pequeno e demonstra completa falta de discernimento quanto aos fatos, pois esses profissionais estão por aí para atender a população, o que, convenhamos, não foi feito a tempo e a hora pela nossa classe médica.

Mas isso não desmancha as minhas impressões aritméticas.

Fiz algumas suposições, é verdade. E queira o bom senso que eu esteja errado.