sábado, 26 de maio de 2012

A pastelaria do José


         Para mim, existem duas espécies de pastelaria: uma em que se faz pastel, de vários sabores, como carne, queijo, frango, presunto com queijo e até o inigualável frango com guariroba.

         Na outra espécie de pastelaria, faz-se pastelão. Isso mesmo: pastelão, daquele tipo que se fazia em hollywood, por ícones como Jerry Lewis, Dean Martin, Oliver Hardy, Stan Laurel, Moe Howard, Larry Fine e Shemp Howard.

         Pois é desse segundo tipo a pastelaria do José. Essa mesmo, que tem um presidente chamado José, o qual já foi presidente de uma pastelaria maior.

         E não é que na pastelaria do José rolou o maior pastelão dias atrás?

         Gordos, magros, patetas e desajeitados se reuniram em volta de uma múmia, oferecendo-nos uma das maiores comédias já vistas.

         Imaginem a cena: os três patetas encontram uma múmia e, depois de muitas trapalhadas, sentam-na, com dificuldade, em uma mesa, cercada de jornalistas se acotovelando para a melhor fotografia e o melhor ângulo, além, é claro, do advogado da múmia, ex-ministro da Justiça da pastelaria maior, aquela que era do José, mas que ele teve de trocar por essa de menor importância.

         Depois, vários gordos e magros tentam fazer a múmia falar, sem saber que, pela história, as múmias já morreram há milhares de anos, portanto, múmias não falam.

         Mas o objetivo é fazer comédia pastelão, então, vamos fazer graça para o público – pensa um dos comediantes.

E de repente começam as mais inusitadas frases:

- Essa múmia está nos fazendo de palhaços!

E alguém duvida que são palhaços?

- O silêncio dele importa em confissão!

É... com certeza são palhaços... leia a Constituição, palhaço!

- Nossas perguntas estão ajudando na defesa dele em juízo!

É possível. Ninguém duvida que alguns palhaços querem ajudar na defesa da múmia.

- Vamos interromper a sessão!

Que conveniente!!!

         Enquanto isso, atrás da caixa registradora, o José – dono da pastelaria – contabiliza a popularidade do espetáculo, para colher depois os royalties, dizendo:

         - Vejam bem meus caros! Brasileiras e brasileiros, a pastelaria está ajudando a sociedade a passar o país a limpo!

         Saí mais cedo do cinema, no meio da sessão.

         Nunca fui muito fã de pastelão.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

EFEITO DOPPLER (parte final)

                 Desceu. Quinze anos atrás.
                Hoje, ele continua ansioso. Piorou bastante nesse departamento. A psiquiatria agradece.
                Ela agora o olha, com suas mãozinhas pequerruchas e seus cabelinhos loiros e anelados. Seus olhinhos azuis são vivos e radiantes. Do alto dos seus oitenta e quatro centímetros, ela pula em seu colo. Papai? Oi, meu amor. Qué bisso. Papai vai colocar o bicho pra você. Ela vê o bicho na TV, enquanto suga o gagau, se preparando para dormir. A mãe vem busca-la, para levar para o berço. As duas o beijam. A pequenina com seus cabelinhos finos e olhos azuis. A mãe com seus olhos castanhos e cabelos escovados. As duas deixam, atrás de si, um espectro vermelho de felicidade que irradia dos seus corpos até a sua mente perturbada.
                Ela continua tranquila e confiante. 
                A pequenina é impulsiva. 
                E impossível
                Ele: feliz

quarta-feira, 18 de abril de 2012

EFEITO DOPPLER (continuação)

                Ele começara havia dois meses no emprego. Entre os sons metálicos das máquinas de escrever, ele tentava espantar as reminiscências do medo pelas áreas do seu cérebro. Atendia as pessoas e julgava internamente se eram casadas ou solteiras. Se tinham filhos ou não. E finalmente se tiveram a juventude interrompida pela assunção repentina da responsabilidade de transformar pessoas frágeis e incipientes em pessoas adultas. A garantia da ingenuidade da criança corresponde à maturidade dos pais. Eu não tenho isso, Deus! Vou passar uma semana sem ligar para ela. Não quero nem saber. Pior que meu salário não dá pra pagar aquilo. Disseram que é caro demais. Ele bate nas teclas de forma automática, não olha para o cliente e não se deixa levar pela sua conversa. Entrega-lhe o documento com um sorriso forçado para que ele saiba que não prestou atenção no que disse. O cara sai meio frustrado. Eu não tenho culpa. Prestei meu serviço e ele não tem nada a ver com os meus problemas. Essa palpitação não tá certa. Isso não é bom. Vou pedir pra sair mais cedo hoje. Daqui uma semana eu ligo. É isso. Pra ver se desceu.
                No dia seguinte ele ligou. Pra dizer que só voltaria a ligar em uma semana. Você sabe, pra você me dizer se deu alguma coisa errada. Você é muito desesperado. Ansioso. Eu não sou ansioso. É sim. Você vai precisar se tratar quando estiver mais velho.
                Foi uma semana angustiante. Ele sentia, em seus sonhos no altar, um cinegrafista com uma luz forte em seu holofote, enquanto ela se aproximava, em seu véu de noiva e ventre protuberante, deixando atrás de si o rastro violeta da desesperança.
                Ele era jovem. Não entendia nada.

(continua)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O combinado não sai caro

(paradoxos da alma humana)

            Um professor de ciência política tentava ilustrar aos alunos como o homem pode ir do céu ao inferno em questão de segundos:
            - Observem o caso em que o indivíduo está comendo um grande e suculento filet mignon, brilhantemente grelhado, rodeado por uma fina camada de bacon e mergulhado em um esplendoroso molho feito do mais apurado vinho madeira. O sabor, para quem o aprecia, é maravilhoso, extasiante. O momento em que a pessoa mastiga e retém no paladar essa impressão, principalmente se a nobre carne estiver acompanhada de champignons frescos e selecionados, é um verdadeiro clímax. O sujeito, ao se refestelar com o banquete, reproduz, numa simples refeição, o paraíso na Terra, tão minuciosa e detalhadamente criada por Deus em sete dias, ou bilhões de anos, como queiram. Imaginem, entretanto, que esse sujeito, ao deixar o restaurante, após o requintado jantar regado a vinho tinto, cuidadosamente mantido na temperatura ideal em uma adega climatizada, sinta-se forçado a parar o seu belo conversível em uma rua erma, acometido de súbito mal-estar provocado pelo efeito da carne – estragada – em seu sistema digestivo. Sozinho, por já ter deixado a dama de companhia em casa, o homem vê-se, agora, numa viela escura e deserta, sentindo náuseas e sem saber o que fazer para controlar a ânsia de vômito que o perturba. Para completar, assaltantes aparecem sorrateiros na via pública em que o infeliz se encontra, espancam-no, arrancam-lhe as roupas e fogem com o seu carro. Aí está, caros alunos, como essa pobre criatura desceu do céu maravilhoso de um bom gourmet à situação infernal de um indigente, caído na sarjeta, ferido, ensopado no próprio vômito e trajando apenas a roupa íntima.
            - Aliás, meus caros, quanto menos perceptível for o nosso “paraíso”, mais rapidamente se dará a queda à “profundeza”. Vejamos a respiração: raramente nos damos conta de que, continuamente, aspiramos vários gazes, entre eles o oxigênio, comburente necessário para que possamos nos mover e para que se devolva ao ar o dióxido de carbono. Se um afortunado camponês caminha alegremente à beira de um córrego, tragando ar puro, sem perceber a grandeza e a vitalidade do ato, o paradoxo do infortúnio chegará a ele tão rápido, se por acaso tropeçar e se afogar no riacho de água cristalina, quanto o percurso de quatro ou cinco voltas do ponteiro de um relógio, quando a apneia e a obstrução dos pulmões pela água provocarem a sua morte. Ora, a maravilha de respirar o ar puro é algo bem menos perceptível ao nosso pensamento – não aos sentidos – do que a ingestão de um belo jantar, até mesmo porque infinitamente mais corriqueira. Exatamente por isso a sua antítese é capaz de causar a destruição desse “paraíso” de forma muito mais rápida e eficaz do que no caso da satisfação do paladar (ou da gula). A imagem imaculada do Éden, então, é dilacerada violentamente em pouquíssimos minutos.
            - É assim que o homem pré-civilizado se sentia diante da liberdade. Era ela algo tão presente e imperceptível, que perdê-la poderia ser uma questão de segundos, bastando que para tanto houvesse uma convenção. E o homem criou o Estado. Não de forma repentina, que lhe causasse grande impacto, mas de forma lenta e paulatina. Quanto mais fosse necessária a criação de normas e pessoas superiores, que as aplicassem, para conter a indignação daqueles que não se adaptavam à vida em comum, tanto mais se tornava imperceptível a substituição da liberdade pela força estatal, de forma que a sua perda ocorreu numa mísera fração de minuto, quando, pela primeira vez, alguém, pisando uma determinada extensão de solo, fincou algumas estacas e obstou, nela, a entrada dos demais.
            - E ainda acreditam em livre arbítrio! - concluiu o professor, antes que aquele aluno petulante e inoportuno dissesse que ele estava plagiando Rousseau sem citar a fonte.
            Logo depois tocou a sineta. O aluno petulante foi até o professor e pediu que lhe abonasse algumas faltas, justificando que sua mãe estivera muito doente nas últimas semanas e que, como era filho único e órfão de pai – além de arrimo de família – não pudera ir às últimas aulas.
            - Impossível – disse o professor – você deveria trazer atestado médico de incapacidade sua de comparecer às aulas, e não de terceiros. Sinto muito, meu caro: normas são normas.

terça-feira, 10 de abril de 2012

EFEITO DOPPLER

                Ela parou de repente e, quase sem saber o que fazer, ficou estática, em pé, à sua frente, olhando-o com seus olhos castanhos e manipulando os cabelos anelados. Ela parecia não se preocupar nem um pouco com a situação. Completamente absorta em seus pensamentos, olhava fixamente para ele e simplesmente não o via. O olhar dele expressava desespero. A imobilidade dela indicava calma e controle completo da situação. As fraquezas dele exalavam por todos os poros. A confiança dela recendia em todo o ambiente. Mas você está nua, não percebe? Finalmente ele rompia o silêncio. E isso faz alguma diferença? Mas como você vai atravessar a sala, passar por todo mundo, pra só depois pegar o comprimido? Relaxa. Tá todo mundo dormindo, não se preocupe. Como você pode ter certeza? Eu tenho. Ele odiava aquele excesso de segurança. Aquela falta de necessidade de conferir as situações. Realmente não tinha ninguém acordado naquela casa, além dos dois. Custava, porém, vestir a roupa? E por que diabos ela tinha de ter esquecido a pílula logo naqueles dias? E se àquelas tantas já não adiantasse mais? E qual seria a garantia de que ela havia tomado nos dias anteriores? Tomaria nos posteriores?
                Enquanto todos esses fantasmas passeavam pela cabeça pós-adolescente dele, ela e sua beleza pós-virginal caminhavam lentamente do quarto para a cozinha. Logo ela se postava, nua em pelo, diante do filtro de água mineral. Gotas em copo de vidro. Pílula abaixo. Pronto.
                Não vai ter nada, você vai ver.
(continua)

sábado, 24 de março de 2012

TOCA AQUI

            Dias atrás, passava na televisão, pela milionésima vez, o filme “De volta para o futuro 2”, filmado em 1989, mas cuja estória se passa em 2015.
            Tinha carros voando, skates flutuantes, televisores ultrafinos, em que as pessoas conversavam entre si, roupas e sapatos infláveis e outros delírios mais sobre o futuro, que a humanidade – sobretudo hollywoodiana – se cansou de divulgar.
            Já reparou como aquele nosso futuro já chegou e, com exceção de alguns avanços, pouco há do que imaginávamos?
            Podemos notar esse fenômeno em diversos filmes, como “Exterminador do Futuro”, “Matrix” e tantos outros.
            O fato é que o ser humano tem o péssimo hábito de se superestimar e acaba se achando capaz de um desenvolvimento muito além do que é possível no espaço de tempo desejado.
            É claro, também, que o Século XX avançou tanto que pensávamos que os carros voadores estavam a poucas décadas de chegar.
Na verdade, o tempo passa muito mais rápido do que podemos perceber. Enquanto você acaba de ler esse “você”, “você” já é passado.
            E o futuro te aguarda nas linhas abaixo. Até nas próximas palavras.
            Com exceção, obviamente, de quem não tinha – e não tem – perspectiva nem de chegar ao amanhã, acabamos sonhando delírios com um futuro que não significa nada mais do que a simples continuação da jornada diária.
            Mas tudo isso me leva a uma reflexão intrigante: já tive dois celulares com tela touch screen. O primeiro era muito ruim, o segundo quase tão ruim quanto. Dava nos nervos: os dedos sempre tocavam de forma imprecisa os algarismos; para procurar nomes na agenda era um inferno; e para digitar números em menus de call centers então? Era de desesperar.
            Migrei então para o teclado qwert.
            E devo confessar: quero voltar para o famigerado touch.
            Por que diabos as pessoas – e eu me incluo – têm esse fascínio todo pelo touch screen? Steve Jobs passou seus últimos anos aumentando astronomicamente sua fortuna com produtos baseados nessa tecnologia.
            Entre ipads, ipods e iphones, todos queremos tocar na tela. Já tem até TV touch screen. Quem comprou um iphone 3 um mês antes do lançamento do iphone 4 sai desesperadamente à procura de alguém que lhe compre aquela coisa ultrapassada.
            Acho que esse é o primeiro passo. Tocando na tela nos aproximamos mais dela. Ninguém se importa com a dor de cabeça ou com os danos à visão. A indústria encontrará uma forma de nos injetar na tela. E não é só uma hipérbole. Está acontecendo quase que literalmente.
            Certamente, o touch screen é uma das tecnologias mais próximas daquele futuro idealizado décadas atrás. Talvez por isso gostemos tanto dele. Afinal, saímos de meros espectadores do que se passa na tela e passamos a comandá-la, mudando o ângulo e o local dos objetos.
            Não se trata de uma crítica ao modus vivendi da sociedade moderna. É só uma constatação.
E não contem pra ninguém, mas esse texto não foi escrito na tela de um ipad, mas no ultrapassado e démodé teclado de um netbook.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A curiosidade não matou o gato

(paradoxos da alma humana)

            Dias atrás me peguei pensando no velho adágio de que a curiosidade havia matado o felino, quando, daí para desmistificar o dito e concluir diferente, foi um pulo (desculpem o trocadilho).
            Sim. Quem morre de curiosidade é o ser humano.
            Sabe aquelas situações em que o trânsito está lento porque houve um acidente e todo mundo passa devagarinho olhando? Então você se revolta e desfere impropérios dentro do carro, amaldiçoando a malta de curiosos que não te deixam chegar ao seu destino.
            Pois é.
            Isso só ocorre se você estiver apressado. Caso contrário, o infortúnio alheio o tornará tão curioso quanto os demais. Muitas vezes, até mesmo nos momentos de pressa, a curiosidade te domina. Mesmo xingando todo mundo, você passa um pouquinho mais devagar (não tanto para não dar o braço a torcer), mas acaba dando uma olhadinha com o canto do olho.
            Às vezes se olha apenas por curiosidade de ver a cara do curioso que está andando devagar na sua frente.
            Não quero com isso achincalhar nem enaltecer a curiosidade. Tudo em excesso é vício. E tudo irrisório é preguiça. Já diria Sócrates: moderação e temperança.
            O fato é que, diferente do que diz um outro ditado, não é só a vaidade que nos move.
             A curiosidade também. Sem ela não teríamos descoberto o fogo, o átomo, os microorganismos e tantas outras descobertas da ciência.
            Mas foi pela curiosidade também que canalhas como Hitler tentaram produzir uma raça pura, com os famosos experimentos científicos praticados em campos de concentração e extermínio, capitaneados pelo médico Eduard Wirths (entre seus comandados estava Josef Mengele, depois refugiado na América Latina).
             No direito, a curiosidade do juiz já foi vista como virtude no processo penal (busca pela verdade real) e como intromissão indevida no processo civil (respeito à disponibilidade das partes).
Hoje, a curiosidade judicial é estimulada no processo civil (o juiz civil inerte é visto com maus olhos) e repudiada no processo penal (no Estado Democrático, cabe à acusação destruir a presunção de inocência do réu; não é incumbência do juiz auxiliá-la nem atrapalhá-la nesse processo).
Confesso que concordo com esse raciocínio.
Mas tenho que confessar também que sou muito curioso.
Ainda bem que não sou juiz criminal.
Enfim, a curiosidade é mais uma dessas dualidades humanas que nos fazem, muitas vezes, esquecer da compostura em busca da satisfação do desejo de tomar ciência tanto de coisas que nos dizem como que não nos dizem respeito.
A busca pela descoberta de algo, do ponto de vista científico, é sempre muito bem vinda. Por parte de quem se propõe a isso, deve ser obstinada.
Mas não pode se tornar obsessiva, como a busca de Otelo pela traição de Desdemona, que nunca havia acontecido, mas que o fez asfixia-la em seu quarto.
E nem me falem de reality shows...